sexta-feira, 19 de março de 2010

A pátria sem chuteiras


Craques da seleção de 1950 fazem jogo exibição em Delhi

Ainda na primeira metade do século 20, antes mesmo de Pelé e Mané, a Índia se rendeu ao talento do futebol brasileiro. Brilhantes cientistas que são, vieram pesquisar o segredo da técnica e da malemolência que faziam dos brasileiros tão habilidosos na arte do esporte bretão – diferentemente dos próprios bretões, colonizadores e introdutores do futebol na Índia, que tinham o estilo “botinudo” e usavam a nada plástica estratégia do “chutão e correria”.

Após observações em diversos campos do país, os indianos chegaram a um consenso: o segredo do talento brasileiro estava nos moleques, que enfrentavam os diferentes pisos da prática futebolística (grama, terra, barro, concreto, asfalto e qualquer outra superfície semi plana) completamente descalços.

Os indianos chegaram à conclusão que, ao sentir o contato direto da pele com o capotão, o cérebro do garoto conseguia registrar nuances como local certo de bater na bola ou o movimento exato para mantê-la grudada no pé enquanto trocava a direção da corrida.

A palestra apresentada convenceu os “turbantes” (nome dado aos cartolas da Federação Indiana de Futebol) e, naquele dia, o futebol na terra de Gandhi passou a ser praticado por atletas descalços.

Em um ano os indianos se tornaram a melhor seleção da Ásia. Não que o continente fosse um grande parâmetro. Mas ainda assim, os “Vacas Bravas” – uma alusão ao animal sagrado do país– passaram a golear os rivais. Em 8 de maio de 1947, o time deu uma baile no Paquistão. Os dribles foram encarados como deboche, causando pancadaria no final do jogo. O líder espiritual Mahatma Gandhi repudiou totalmente o confronto, embora testemunhas afirmem terem visto-o mostrar o dedo do meio para a torcida adversária.

A classificação para a Copa de 1950, no Brasil, apesar de tranqüila, foi comemorada com grande festa e muita dança, especialmente em Delhi. A empolgação dos indianos era enorme. Tão enorme que despertou a atenção de uma empresa de materiais esportivos.

“Eles não usam chuteiras na índia. Ainda! Vamos direcionar nossa produção toda para lá e fazer marketing com a seleção.”

Não demorou muito e um lote do modelo de couro de cavalo – de boi jamais seria aceita no país – foi entregue para a Federação Indiana de Futebol, a Fifu, junto com uma generosa quantia de libras esterlinas. A felicidade dos “turbantes” era latente, porém, não compartilhada com os atletas.

“Preferimos jogar descalços”, disse o capitão do time, Apu Suresh.

Os atletas não foram ouvidos e o uso da chuteira foi imposto. Eles desfilaram com as chuteiras e apareceram em anúncios que diziam: “A Índia tem futebol de primeiro mundo”. O sucesso comercial foi enorme. Mais de 300 milhões de pares foram vendidos em poucos meses.

E Índia veio para o Brasil. Estava no Grupo 3, contra Suécia, Itália e Paraguai. A história vocês conhecem: Derrota para o Paraguai, no Durival de Brito, em Curitiba, por 1 a 0, com o emblemático gol saindo no primeiro minuto de jogo: um passe fraco dado pelo zagueiro Odara Petlohn, que encontrou o avante paraguaio no meio do caminho. No Pacaembu, três dias depois, goleada imposta pela Itália: 6 a 0, com o indianos errando todos os cruzamentos. De volta a Curitiba, precisavam de um milagre: golear a Suécia e torcer por uma goleada paraguaia sobre a Itália.

Triste fim indiano ao perder por 3 a 0 da Suécia, com o terceiro gol saindo após um tiro de meta terrivelmente cobrado pelo goleiro Kabir Kamadewa.

A revolta da população – e dos patrocinadores, que cortaram toda a verba de publicidade – vez o futebol morrer na Índia.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Coreia atômica



Data: 15 de junho de 2010
Local: Ellis Park Stadium, Joanesburgo, África do Sul
Evento: Copa do Mundo, 1ª rodada do Grupo G. Brasil x Coreia do Norte

Os norte-coreanos caçaram Kaká desde o primeiro minuto. Mun In-Guk sabia que seria expulso, mas cumpriu sua missão: tirar o craque do Brasil de campo - e da Copa.

O eficiente mas pouco criativo meio-de-campo canarinho se viu encurralado pelo ferrolho armada pelos asiáticos. Restavam os lampejos de Luis Fabiano e Robinho.

O primeiro não suportou a ansiedade do 0 x 0 e perdeu a cabeça. Aos 7min do segundo tempo, cartão amarelo por reclamação. Aos 12min, uma entrada mais forte lhe valeu o segundo amarelo e o consequente vermelho.

Robinho pedalou, fintou, infernizou a zaga coreana, mas atrás do primeiro driblado, a cobertura não dava mole. Ao contrário, fornecia o tempo necessário para a a marcação se reestabelecer. Quando cruzava, não havia ninguém na área.

Sem sofrer pressão, aos 33min, Dunga saca Felipe Melo e põe Nilmar. O Brasil se lança ao ataque. André Santos esquece a defesa e se torna um meia ofensiva pela esquerda. O Brasil é todo pressão.

Aos 42min a Coreia do Norte toma a bola. O passe chega a Jong Chol-Min que encontra um buraco na defesa brasileira - onde deveriam estar Melo e Santos -, vê e lança o artilheiro Hong Yong-Jo. Ele corre muito, invade a área e fuzila Julio Cesar. O jogo acaba. Brasil 0 x 1 Coreia do Norte.

Impossível? Em 1966, na Inglaterra, também era. Mas os norte-coreanos venceram a Itália.



Obs.: Seis dias depois a Coreia do Norte se vingou dos 5 x 3 que levou de Portugal em 66 com um 2 x 1. O Brasil goleou a Costa do Marfim por 5 x 1. No dia 25, os coreanos enfiaram 3 x 0 nos marfinenses. Já Brasil fez 6 x 2 em Portugal, com quatro de Luis Fabiano. A Coreia do Norte caiu nas oitavas de final (perdeu por 1 x 0 da Suiça). O Brasil foi a final, mas perdeu da Inglaterra por 3 x 1 (de virada). Na volta ao país, Dunga é massacrado pela imprensa e pela torcida, acusado de ter perdido a Copa por não ter levado Ronaldo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Dasaev, o goleiro impossível



Os comunistas lamentam o fim da União Soviética por questões ideológicas. Eu não. Lamento por questões futebolísticas. Nem era exatamente por causa da qualidade futebol. Mas o nome "União Soviética" soava super potente aos meus ouvidos. Imaginava um país que não era só um país, era uma União. E uma União "Soviética" - seja lá o que significasse o termo soviético.

Pois a estréia da Seleção de 82 (aqueeeela Seleção) na Copa da Espanha foi contra a tal da União Soviética. A mesma que, exatos dois anos antes, havia nos derrotado por 2 x 1. E no Maracanã. Nós tinhamos três gênios (Falcão, Sócrates e Zico), craques e bons jogadores. Os soviéticos tinham só um cara. O goleiro. Rinat Dasaev.

E jogava na União Soviética! Era o líder do bandidos. Todos aqueles caras que entraram de vermelho tinham um líder. Aquele cara de azul e preto. O número 1. Dasaev. O goleiro da URSS que nos derrotou no Maracanã.

Gloriosa e dolorosa, a Copa de 1982 começou para o Brasil com um peru incrível de Valdir Peres. Dasaev jamais cometeria tal pecado. Uma bola fácil daquelas?

O primeiro tempo se foi. O Segundo começou. O Brasil tentava: chutava, de perto, arriscava de longe, cruzava na área. E nada. Dasaev mal pulava. Defendia ereto, calmo. O maldito nem suava! Era impossível fazer gol nele.

Precisavamos de um chute indefensável, 100% preciso. Um chute de mestre. De doutor. Sócrates driblou dois e fez do impossível o possível. Pôs no único lugar fora do alcance de Dasaev, um mero espaço entre as mãos enormes e a trave. Alívio.

Empatar era bom. Vencer, a glória. O Brasil acuou o soviéticos. Ou quase todos . O desgraçado continuava lá, totalmente indiferente ao gol sofrido. Talvez estivesse certo que seria impossível algum brasileiro acertar outro chute tão preciso. E, ainda que acertasse, agora ele estaria preparado.

Estava certo em tudo. Execeto no fato de que não teria tempo de reagir, porque o chute de Éder, a 25 metros distância, seria tão forte que deixaria o gigante congelado.

Dasaev continuou sendo meu ídolo meu com o passar do tempo. Com o passar do tempo ele deixou de ser vilão. Passou a ser meu herói, meu personagem nas partidas de "três-dentro-três-fora".

Seis anos depois, quando eu tinha 12, o atacante holandês Marco Van Basten me fez relembrar o que eu pensava desde os 6: para fazer um gol em Dasaev, era preciso acertar um chute impossível.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Viola na Copa


Se jogar uma Copa do mundo é privilégio para poucos, disputar o Mundial com a camisa da Selação brasileira é quase uma loteria. O cara precisa ser craque, ter mídia, ter regularidade, ter um bom empresário, ser amigo do técnico, do Ricardo Teixeira e também atuar de forma mágica nos últimos seis meses antes da convocação.

Em 1994, o corinthiano Viola, nascido Paulo Sérgio Rosa, tinha tudo isso. E apesar de não ter chance alguma como titular, foi compor o elenco tetra-campeão junto dos gênios Bebeto, Romário e Ronaldinho. O cara até teve a chance da consagração máxima, ao entrar na final contar a Itália, dar uma arrancada fenomenal e quase decidir o jogo mais 0x0 da história.

Mas o motivo desse texto não é falar de Viola na Copa de 1994. E sim da ausência do cara em 1998. Vítima das próprias escolhas ruins, principalmente fora de campo, o jogador funcionaria como uma bem azeitada máquina de gols no Santos, em 1998. Foram 21 gols em 28 partidas.

E porque o cara nem foi cogitado para a Copa da França? Por que razão ninguém brigou pela convocação dele, quando Romário foi cortado? Como é que Zagallo só levou três atacantes (Ronaldo, Bebeto e Edmundo + Rivaldo que era considerado meia)?

As respostas são simples. Viola jogou muita bola. No Corinthians, em seu auge, foi o camisa 9 clássico e, ao mesmo tempo, também teve estalos como os daquela arrancada de 1994. Depois, foi sempre marcado pela piadas, comemorações, tintas no cabelo e outras várias palhaçadas. Não havia (e não há) lugar para palhaço na Seleção.

O marketing que ele julgava fazer bem para sua carreira, foi seu maior inimigo. Hoje, ele fica na mesma prateleira que Biro-Biro e Vampeta. Outros craques que foram pouco aproveitados na seleção muito mais por causa do imaginátio popular do que pelo rendimento dentro das quatro linhas.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Como é que é?

issaqui tá ligado por isquaronai.

Em 1966, Feola convocou 45 jogadores.

Dadá, em 1970, só foi porque a Ditadura mandou.

Biro-Biro não foi lembrado em 1982, 1986

Em 1990, levaram Bismark no lugar do Neto

O camisa nove da seleção de 1994 foi... o Zinho!

Zé Carlos, em 1998, imitava animais.

Em 2002, não levaram Romário

Em 2006, Juninho Pernambucano mal jogou

Qual será o absurdo na convocação de 2010?

domingo, 13 de dezembro de 2009

Profeta



Para dar as boas-vinda ao Dio, recorro a uma passagem comum entre nós. A abertura da Copa de 2002.

Era sexta-feira, véspera do Juca daquele ano, em Guaratinguetá. Lembro perfeitamente do tom calmo e seguro que sustentou aquela frase bombástica:

"Velho, o Senegal vai ganhar", disse ele.

"Ah ah ah", respondi, levando a lata de cerveja à boca mais uma vez.

Ele imitou meu gesto, olhou nos meus olhos e reafirmou: "É sério, cara. O Senegal vai ganhar"

"Não há a menor chance", respondi, de certa forma ofendido. Era inacreditável que ele, dono de um raro conhecimento de futebol, adquirido ao longo de vários 90 minutos de arquibancada, principalmente a do Palestra Itália, apostasse nisso.

"Pois a festa do alojamento, à noite, será a Festa do Senegal", devolveu, desta vez sem me olhar, amassando a lata vazia e a jogando na sarjeta, de onde um garoto a recolheu em menos de três segundos.

Olhei incrédulo. Ele abriu mais uma lata, tomou o primeiro gole e cantarolou: "Sene, Sene, Sene, Sene, Senegaaaal..."

Desta vez eu ri com sinceridade. Achei engraçado.

A noite se tornou madrugada e nós dormimos. Uma TV de 14 polegadas era nossa arquibancada, naquela manhã de sábado. Eram 8h30. Por volta das 10h05, a profecia se concretizara: Senegal 1 x 0 França. A mesma França que havia se tornado campeã do mundo quatro anos antes, nos enfiando os dolorosos 3 x 0.

Desliguei a TV e não disse nada. Ele também não me disse nada. Esperou minha fala.

"Festa do Senegal. Vai ser engraçado isso", disse eu. Ele me deu as costas e liderou o comboio para o ginásio - com um detestável sorriso de satisfação.

E foi exatamente assim que aconteceu.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Serviço de Som

Aceitei com imenso prazer e prontamente o convite do Badô para participar do blog. Embora o mote seja ‘Lendas da Copa’, creio que eu vá fugir ora ou outra do tema central – o que também deve ter sido considerado pelo prezado moderador na hora do convite.

“Peru: a vergôna da copá”. Deste modo pronunciei, perante toda a família reunida, minha primeira frase lida em público relacionada a esportes. Já balbuciava outras frases de nenhuma importância, lida em livros infantis, tais como “a galina dos ovôs de oro” e “os trez porquinôs”.

Ninguém dava muita bola. Às vezes, um pai orgulhoso me apontava como alfabetizado (eu já lia havia uns dois anos); em outras, um avô dava tapinhas nas costas com indiferentes “que bonitinho”, para voltar com devoção a seu tradicional conhaque.

Mas “a vergôna da copá” me colocou definitiva e irreversivelmente entre aqueles que, não só liam, mas compreendiam a dimensão do que estava escrito. Passei a fazer parte da família. “Um homem lido”, experiente, quase pronto para dividir o conhaque com o avô.

Aquela frase foi manchete de algum jornal de 1978, no dia seguinte à derrota por 0 x 6 dos peruanos diante da Argentina, resultado que eliminou Brasil da Copa daquele ano.

Nunca assisti àquele jogo. Nem à época nem depois. De birra. Lembro, se muito, de dois ou três gols, que insistentemente são reprisados sempre que há situações que remetam ao ocorrido. E cresci detestando o Peru* – um país com nome de comida de Natal.

O que pode haver de lenda neste episódio é proporcionado pela minha falha memória – que parece piorar com o tempo: rolava a partida entre Hermanos e Peru, e eu jogava bola com a molecada na rua, alheio, de certo modo, à importância do que ocorria na Argentina, naquele momento.

Vez ou outra eu gritava do térreo “MÃÃÃE, MÃNHÊÊÊ”. Ela se limitava a colocar a cabeça pela janela para informar placidamente: “2 a 0 para a Argentina, meu filho”. Considero essa cena como minha primeira versão de serviço de som de estádio.

Eu tinha noção de que quatro gols eram o limite que separavam o sucesso do fracasso. Como aos cinco anos não havia desenvolvido exatamente meu senso nacionalista, minha maior preocupação então era “se o Brasil, perder meus pais vão ficar tristes”.

E assim segui jogando minha bola com os moleques na rua, com um “MÃE, MANHÊ” a cada intervalo de tempo que me parecia razoável.

Nossa pelada no asfalto rolava em uma rua sem saída, o que fazia o jogo correr solto, sem grandes interrupções de carros. A bola só parava quando, sem solução, nos estapeávamos para decidir qual time cobraria o lateral, afinal.

Porém, num determinado momento, fez-se silêncio no BNH do Alto de Pinheiros - palco de nossa peleja. Repentino. Significativo. Acachapante. Ausência de som. Sopro gelado no nosso suor de futebolistas mirins. Nossa pelada se deteve, respeitando o mesmo silêncio que tomava conta do quarteirão.

Sem muitas justificativas, pouco a pouco os jovens jogadores abandonavam a rua e seguiam em direção a seus lares. Uns voltavam pálidos, caminhando sem muito objetivo aparente – geralmente os mais velhos. Outros sequer retornavam.

Observei aquele fenômeno por minutos, de certo modo evitando ao máximo recorrer ao um novo “MÃE, MANHÊ”. Eu temia – e sabia – o que havia ocorrido dentro de cada apartamento daquele grande BNH, onde residiam meus avós maternos.

Petrificado, procurava mentalmente uma história que pudesse substituir o iminente comunicado, que chegou, enfim, em forma de aviso frio, pragmático, incisivo e resoluto do serviço de som da janela da cozinha.

“A Argentina ganhou de 6 a 0, meu filho. Venha se trocar, que vamos para casa”.

O BNH existe até hoje; sobreviveu a meus avós, em frente ao Parque Villa Lobos. De lá para cá, foram sete Copas do Mundo, das quais ganhamos duas, com direito a um vice. Mas até hoje, quando percebo que abriram o microfone no serviço de som do estádio, um breve calafrio me percorre: “lá vem merda!”.

Assim começam minhas Lendas das Copas do Mundo.

* O Peru é um país maravilhoso, cuja visita recomendo àqueles que a possa realizar.